quarta-feira, 3 de outubro de 2007
3.1 – Dados Biográficos:
Jacques-Marie Émile Lacan, de uma família burguesa e católica, nasceu ao dia 13 de abril do ano de 1901 na cidade de Paris, na França. A mesma cidade aonde veio a falecer ao dia 09 de setembro de 1981. Seu pai, Alfred Lacan (1873-1960) era um homem fraco e trabalhava como representante comercial da empresa de vinagres. Quanto à sua mãe, Émilie Baudry (1876-1948), mais intelectual, era inteiramente voltada para a religião. Lacan era filho primogênito. Depois dele veio sua irmã, Madeleine, que nasceu em 1903, um irmão, Raymond, que morreu na infância e enfim Marc-François (1908-1994), por quem ele tinha grande afeição. Devido a sua formação católica, Lacan estudou em uma célebre instituição dirigida por jesuítas. Em 1918, ele não encontrou, dentre os que voltaram da guerra a presença do seu pai que tanto amou na infância.
Lacan se formou em medicina, especializou-se em psiquiatria entre 1927 e 1931 e teve como único mestre Gaétean de Clérambaut. Com a sua tese “A psicose paranóica em suas relações com a personalidade” (1932), demonstrou grande simpatia pela psicanálise. Ainda em junho de 1932 começou sua análise com Rudolph Loewenstein, devido a problemas mais políticos do que científicos, e em 1934 entrou para a Sociedade Psicanalítica de Paris. Já em 1936, na Asociação Internacional de Psicanálise em Marienbad, apresentou seu trabalho sobre o “estágio do espelho”, fazendo com que, a partir daí, sua história se confundisse com a da psicanálise e em 1938 foi nomeado membro titular da Sociedade Psicanalítica de Paris, apresentando demissão da mesma em 1953. Neste mesmo ano uniu-se com Lagache para fundar a Sociedade Francesa de Psicanálise, que durou por dez anos, além de iniciar a sua vida de seminários. Já em 1963 Lacan foi expulso da ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE PSICANALISE e um ano mais tarde fundou a Escola Freudiana de Paris.
Em 1934 casou-se com Marie Louise Blondin, com quem teve três filhos: Caroline (1936), Thibaut (1938) e Sibylle (1940). Porém, a paternidade não afetou o tempo que dedicava a seus trabalhos e a divulgação dos mesmos. Em 1941 Lacan se divorciou de M.L.Blondin devido à sua relação com Sylvia Bataille, que se encontrava grávida dele. Após a separação, Lacan se casou, em 1953, com Sylvia Bataille, com quem teve mais uma filha: Judith Sophie (1941). Após um acidente automobilístico que sofreu em 1978, ele dissolveu em 1980 a Escola Freudiana de Paris e fundou a “Causa Freudiana”, que logo se transformou na Escola da Causa Freudiana. Durante essa fase Lacan já não atuava sozinho. Com a ajuda de seu genro J.A.Miller, casado com a sua filha Judith Lacan, ele dava alguns seminários, porém sem a desenvoltura que tanto o havia caracterizado. Ele estava com uma patologia vascular de origem cerebral, além de um câncer de cólon que foi decretado em 1980. Dessa maneira, em 9 de setembro de 1981, em Paris, faleceu o psiquiatra-psicanalista Jacques-Marie Émile Lacan.
Lacan se formou em medicina, especializando-se em psiquiatria entre 1927 e 1931. Em 1932 com a sua tese “A psicose paranóica em suas relações com a personalidade” (uma ilustração clínica das potencialidades do amor, quando esse é levado ao extremo), demonstrou grande simpatia pela psicanálise. Este estudo também representou uma ruptura com os trabalhos dos psiquiatras franceses da época, que viam na psicose paranóica um agravamento dos traços que definiam o caráter paranóico. A descrição fenomenológica exaustiva de um caso, sua tese, levou-o à psicanálise. Ainda em junho de 1932 Lacan iniciou sua análise com Rudolph Loewenstein. Análise essa que durou seis anos e meio e terminou com um grande desentendimento entre ambos. Porém, a mesma possibilitou-o descobrir a originalidade da experiência analítica em relação à prática psiquiátrica e em 1934 entrou para a Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP). Ainda em 1934 foi nomeado médico dos asilos. Na SPP, Lacan atraiu muitos alunos, fascinados pelo seu ensino e desejosos de romper com o freudismo acadêmico da primeira geração francesa. Começou então a ser reconhecido ao mesmo tempo como didata e como clínico.
Já em 1936, no Congresso Internacional de Psicanálise em Marienbad, apresentou seu trabalho sobre o “estádio do espelho”, fazendo com que, a partir daí, sua história se confundisse com a da psicanálise e em 1938 foi nomeado membro titular da Sociedade Psicanalítica de Paris. Após o Congresso em Marienbad ele foi para Berlim assistir aos Jogos Olímpicos. O triunfo do nazismo provocou nele um sentimento de repugnância. Dessa maneira, em 1938, Lacan fez um balanço sombrio das violências psíquicas próprias da família burguesa. Constatando que a psicanálise nasceu do declínio do patriarcado, Lacan apelou para a revalorização de sua função simbólica no mundo ameaçado pelo fascismo. Em 1953, enquanto presidia a Sociedade Psicanalítica de Paris, ele pediu demissão da mesma e neste mesmo ano, juntamente com Daniel Lagache, J. Favez-Boutonier e F. Dolto fundou a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP), que durou por dez anos, além de iniciar a sua vida de seminários. Durante o primeiro congresso da SFP, que se realizou em Roma em setembro de 1953, Lacan fez uma notável intervenção: “Função e campo da fala e da linguagem na psicanálise”, na qual expôs os principais elementos de seu sistema de pensamento, provenientes da lingüística estrutural e de influências diversas, oriundas da filosofia e das ciências. Ele elaborou diversos conceitos, que desenvolveu ao longo dos anos enriquecendo-os com novas formulações clínicas e depois lógico-matemáticas.
Já em 1963 Lacan foi expulso da Associação Internacional de Psicanálise e um ano mais tarde fundou a Escola Freudiana de Paris. Após um acidente automobilístico que sofreu em 1978, ele dissolveu em 05 de janeiro de 1980 a Escola Freudiana de Paris. Ao mesmo tempo, convidou aqueles que queriam prosseguir com Lacan a se associar a uma nova escola que viria, e onde ele mesmo faria a seleção das demandas. Em julho de 1980, no seminário de Caracas, Lacan anunciou a criação de “minha causa freudiana”, onde ele disse: “Cabe a vocês serem lacanianos, se quiserem. Eu, eu sou freudiano”. Não impedindo que Lacan marcasse nitidamente as diferenças entre as duas teorias.
Leitor de Platão e simpatizante do nietzscheísmo, Jacques Lacan foi o grande responsável por uma releitura e democratização da teoria psicanalítica freudiana. A influência que Sigmund Freud, considerado o “pai da psicanálise”, exerceu na psicanálise lacaniana foi tão grande que o próprio Lacan se considerava um psicanalista freudiano1. Promovendo um “retorno a Freud”, Lacan trouxe os textos freudianos para o foco de interesse não só de psicanalistas como também de médicos, filósofos, lingüistas, antropólogos, literatos, matemáticos e do público em geral que vinha assistir aos seus seminários. Lacan iniciou-se na filosofia hegeliana no seminário que Alexandre Kojève2 dedicou a Fenomenologia do Espírito. Entre os fenomenologistas que influenciaram Lacan deparamos com Husserl, filósofo alemão, conhecido como fundador da fenomenologia; seu aluno Heidegger e Merleau-Ponty, filósofo fenomenologista francês. Lacan sofreu também influência do fundador da antropologia estruturalista, Lévi-Strauss, a qual se propõe analisar as relações sociais em termos de estruturas relacionais altamente abstratas. Já com os existencialistas Lacan inspirou-se em Jaspers, filósofo e psiquiatra alemão, e Sartre, um eminente filósofo francês. Interessado em lingüística, o “psicanalista freudiano” recebeu influências de Saussure, um lingüista suíço cujas elaborações teóricas propiciaram o desenvolvimento da lingüística enquanto ciência e desencadearam o surgimento do estruturalismo e Jakobson, pensador russo que se tornou num dos maiores lingüistas do século XX e pioneiro da análise estrutural da linguagem, poesia e arte. Foi nos estudos de Ferdinand de Saussurre e de Roman Jakobson que Lacan se inspirou para criar a teoria de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, atribuindo ao significante uma posição de predominância sobre o significado.
Jacques Lacan ao repensar o sistema freudiano despertou não só críticas, como também grandes admiradores. Jacques-Alain Miller, genro de Lacan, foi o grande difusor da psicanálise lacaniana. Em seu testamento, Lacan deixava a Miller, a tarefa de editar a sua obra e dar continuidade ao movimento que ele iniciara. Miller faz uma releitura de Lacan assim como Lacan fizera a Freud, e em 1992 cria a Associação Mundial de Psicanálise. Nos anos setenta, Lacan chega à Argentina, juntamente com Althusser, influenciando significamente seu pensamento. “Lacan viu e compreendeu a ruptura libertadora de Freud. Compreendeu-a no sentido pleno da palavra [...] devemos a ele o essencial”. (Louis Althusser). 1 Louis Althusser era um filósofo francês, o qual foi um dos responsáveis por escrever um “dos mais belos comentários da obra de Lacan” (ROUDINESCO, 1998). A obra de Lacan foi lida por diversos filósofos, tais como Michel Foucault, Pierre-Félix Guattari, Gilles Deleuze e Slavoj Žižek. Este último foi extremamente influenciado pela obra de Jacques Lacan e sua leitura de Freud, Zizek a utiliza como uma referência ou ferramenta para seus estudos e pesquisas. Segundo ele, Lacan era necessariamente hegeliano, sobretudo na última etapa dos seus ensinamentos, isto é, na lógica do não-todo e na ênfase colocada no real e na falta do Outro. Sendo assim, pode-se observar que Slavoj Zizek – influenciado por Lacan - faz uma leitura do sistema hegeliano de acordo com um panorama essencialmente lacaniano.
1 http://www.estacaoliberdade.com.br/releases/lacan.htm
Lacan escreveu muitos livros de importância notável para a Psicologia e Psicanálise. Entre os seus inúmeros registros está o livro Escritos, o qual contém a íntegra dos seus textos escritos entre 1936 e 1966, entre outros artigos fundamentais para a psicanálise contemporânea. Lacan escreve também Os complexos familiares, publicado em 1938, e representa hoje um escrito precursor do seu ensinamento. Publicou também Televisão, onde os assuntos são todos de enorme importância em nossos dias, incluindo os mal-estares da civilização através do capitalismo e do racismo, o inconsciente e sua relação com a linguagem, as relações do homem com a mulher e da psicanálise com a ética. No O Triunfo da Religião, ele acreditava que a verdadeira religião acabaria por derramar carga máxima de sentido sobre o real cada vez mais insistente e insuportável que devemos à ciência. A obra Meu Ensino agrupa três conferências inéditas em livro, pronunciadas entre 1967 e início de 1968, logo após o sucesso inesperado dos Escritos. A partir daí, Lacan é convidado para dar palestras em muitos lugares e para platéias diversas onde fala sobre quem é e o que faz, tratando também de temas como inconsciente, Outro, linguagem, desejo, perda.
Lacan é uma das figuras mais discutidas da Psicanálise contemporânea. Seus Seminários, realizados em Paris de 1953 a 1980, são indispensáveis para o conhecimento integral da nova e revolucionária leitura por ele empreendida da obra de Freud.
Lacan traz para a Psicologia e para a sua Psicanálise o estudo sobre o que ele designa de “Estágio do Espelho”. Assim, o que vemos em tal estágio seria a adoção de um ponto de vista estrutural que ainda não fez nascer a ênfase no registro do simbólico e que é aplicado ao quadro da teoria do imaginário em seu momento mais característico; ou seja, é quando a reflexão sobre a imago ganha seus mais longos e ricos desdobramentos que seus impasses começam a se fazer sentir, dando lugar à necessidade de se lançar mão de uma outra dimensão de análise (SALES, Lea Silveira) . O estágio do espelho trata de algo semelhante ao vivido por uma criança ao experimentar pela primeira vez a vivência de um corpo unificado.
Jacques Lacan também conceitua o sujeito como este sendo constituído através do campo do Outro que o nomeia. A partir do corpo do Outro (tesouro dos significantes), o corpo alheio se constitui, se produz e se grava. Nota-se, então, que a produção do sujeito está intimamente vinculada a um processo dialético entre o sujeito e o Outro. O inconsciente será o meio de campo cortado destes termos, ou seja, é o corte operado entre o sujeito e Outro (FERNANDES, Felipe Paiva).
Na realidade, há uma concepção posterior de Lacan que, de fato, é uma razão teórica, à medida que Lacan trabalha com a axiomática do gozo e com o registro do Real de uma maneira diferente daquela que trabalhava no nível das formações do inconsciente e da função da fala no campo da linguagem (NOGUEIRA, Luiz Carlos). O registro psíquico do real não deve ser confundido com a noção corrente de realidade. Para Lacan, o real é o que sobra do imaginário e que o simbólico não consegue de capturar. O real é o impossível, aquilo que não pode ser simbolizado e que permanece impenetrável ao sujeito. Diante do real, o imaginário vira as costas e o simbólico tropeça. Real é aquilo que falta na ordem simbólica, os restos que não podem ser eliminados em toda articulação do significante, aquilo que só pode ser aproximado, jamais capturado (BRAGA, Maria Lucia Santaella).
Ainda há muita dificuldade em ler Lacan, porque ele entra por campos muito novos que a cultura ocidental ainda domina pouco, como a lógica moderna. Foi muito interessante essa grande contribuição que Lacan deu em relação, justamente, à formação da psicanálise.
Através de um breve estudo sobre o psicanalista francês Jacques Lacan, pode-se observar sua contribuição para a Psicanálise. A princípio, não havia a intenção de criar uma “psicanálise lacaniana”, estando ele interessado muito mais em uma releitura dos textos de Sigmund Freud.
Entretanto, o que seria “apenas” um retorno a Freud, tornou-se uma verdadeira revolução no campo psicanalítico, no qual diante do surgimento de novas idéias, a psicanálise, muito provavelmente estaria ameaçada. A Lacan, também se deve atribuir a propagação dos textos freudianos para diversas áreas do conhecimento como de médicos, filósofos, antropólogos, literatos, lingüistas, matemáticos, entre outros.
Para Lacan a psicanálise não se resume a uma ciência, visão de mundo ou uma filosofia que pretende solucionar os impasses psíquicos do ser humano. A psicanálise é uma prática, onde através do método da livre associação chegaremos a essência do ser, o centro de si mesmo. Portanto, a psicanálise lacaniana, não é uma simples corrente, mas uma verdadeira escola a qual Sigmund Freud foi fonte de inspiração e Jacques Lacan foi, provavelmente, seu mais notável seguidor.
REFERÊNCIASALMEIDA, João J.R.L.; Sujeito, desejo e gozo: para uma terapia da concepção de linguagem de Lacan. Dois pontos, abril, volume 3, número 1; Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Curitiba, 2006. Disponível em: http://calvados.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/doispontos/article/viewFile/5159/3882
BRAGA, Maria Lúcia Santaella. As três categorias peircianas e os três registros lacanianos. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65641999000200006&tlng=en&lng=en&nrm=iso.FERNANDES, Felipe Paiva. Ensaios sobre o sujeito na psicose. Disponível em: http://www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=365.
FERREIRA, Jacirema C.; MOLLOY, Carmem. Entrevista com Silvia Bleichmar. Psyché, julho-dezembro, Vol. V, n. 8; Universidade de São Marcos, São Paulo, 2001. Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/307/30700814.pdf. Acesso em 22 de setembro de 2007.
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. 874p.
SALES, Léa Silveira. Posição do estágio do espelho na teoria lacaniana do imaginário. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-80232005000100009&lng=pt&nrm=iso. Acesso em 19 de setembro de 2007.
SOBREIRA, Sílmia. Antes e depois de meu encontro com Lacan Paris - Julho de 1977. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-65642004000100014&script=sci_arttext.
http://psicanaliselacaniana.vilabol.uol.com.br
http://www.estacaoliberdade.com.br/releases/lacan.htm
http://www.zahar.com.br/catalogo_detalhe.asp?id=0025&ORDEM=A
http://www.encyclopedie-enligne.com/j/ja/jacques_lacan.html
http://www.freud-lacan.com/dossiers/dossiers.php
http://www.freud-lacan.com/agenda/agenda.php
http://www.clinicamente.com.ar/articulos/ev-lacan.htm
http://www.nndb.com/people/391/000115046
http://psicanaliselacaniana.vilabol.uol.com.br/biografia.html
http://br.geocities.com/jacqueslacan19011981/biografia.htm